Bárbara

Bárbara não fala. Bárbara come, muito. Come quando tem o que comer e pede comida sempre que possível. Ver Bárbara comer é um misto de contemplação e ansiedade, tamanha a voracidade com que ela devora o que vê que dá para engolir. Eu gosto de ver Bárbara comendo, mesmo que seu esgano soe ofensivo aos olhos não treinados a enxergar que o que ela faz simplesmente é a absoluta entrega ao prazer glutão.

Bárbara não fala. Bárbara dorme, muito. Ela deve dormir mais de 12 horas por dia, todo dia. É ver um colchão, uma cama ou um sofá que ela se joga aconchegante, esparramada, dominadora de toda a maciez disponível. Na verdade, Bárbara dorme até no chão duro, principalmente em dias de calor. E sonha, e ronca, e tem pesadelos, e resmunga enquanto dorme. Também gosto de contemplar Bárbara dormindo.

Bárbara não fala. Bárbara se comunica pelo toque. Ela se projeta em você na alegria, se encosta na calmaria, te conforta na tristeza. Dentro da sua capacidade, ela lê a conjuntura e se pronuncia sem palavras, mas com tato.

Bárbara não fala, mas sabe ouvir o que os corações dizem. Quando eu caminhei pelo vale da sombra da morte, Bárbara se deitou ao meu lado, em silêncio, vigilante. Sentiu minha dor sem que eu houvesse reclamado e se compadeceu. Acompanhou meus passos até o sol nascer. Nos adotamos desde então.

Bárbara não fala, então ela não vai se despedir. Eu sei que ela está indo embora e quando for será sem avisar. Quando ela sair pela última vez pela porta, um pedaço de mim irá também e eu estarei um pouquinho menor, incompleto, vago.

Gostaria de acreditar que Bárbara sente por mim o que eu sinto por ela.

Uma receita de bolo no jornal

Cem medo de falar
Em tempos de gritar
Não há o que esconder
Somente o que dizer
Um sopro de verdade
Respiro de mil frases
Alívio da certeza
Despido de triteza
Ou será que não?

Fuga da Fantasia: Preparando a festa

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Fuga da Fantasia: Formatura

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Passagem

No alto do morro, em uma reentrância que lembrava a entrada de uma caverna, Saak’loo estava deitado de barriga para cima esperando pela Passagem. Mesmo já a tendo feito uma vez anteriormente, as sensações de ansiedade e apreensão preenchiam seu corpo.

O principal sintoma de que a hora da Passagem havia chegado era o abdômen dilatado, que em nada se parecia com gordura ou doença. Era a barriga da Passagem. Uma vez que ela aparecesse, o indivíduo deveria se afastar da tribo e escolher um lugar calmo e seguro para atravessar o momento. E assim estava Saak’loo: sozinho, distante, seguro. E assim estava ele: com medo, inseguro e ligeiramente triste. Apesar do lado bom, a Passagem não deixa de ter sua face indesejada.

Ela chegou. Começou pela boca secando rapidamente, como se houvesse engolido sal puro. Os lábios incharam e a língua se sentia áspera e dura. Essa etapa demora algumas dezenas de minutos, seguidos de uma turbidez na visão. Não era possível focar mais as paredes da reentrância ou o céu que aparecia após a borda do teto de onde ele estava. Cada piscada do olho seco arranhava como areia.

A audição desaparecia de repente, anunciado por um estampido alto e sucedido por um apito agido que ia suavizando até a surdez, no tempo de dez ou quinze piscar de olhos. Daí veio a coceira pelo corpo todo, sintoma da pele que se ressecava sem aviso. O cabelo deixava o couro cabeludo aos tufos, à medida que as mãos alcançavam o alto da cabeça para responder aos desejos do comichão. Nesse processo, as pontas dos dedos rachavam e sangravam e as unhas caíam.

Cego, surdo, incapaz de abrir a boca e com a pele rachando sozinha, careca e sofrendo a dor de cada uma dessas deficiências, o ultimo ato da Passagem era a dor no peito. A respiração ficou ofegante e difícil. A cada aspiração parecia que um quilo de peso era adicionado ao seu tórax, tornando a próxima um desafio a ser vencido, até quando a situação se torna insustentável. Saak’loo deu seu derradeiro suspiro.

Ao soltar o ar pela última vez sem conseguir preencher os pulmões novamente, o desespero só o tomou por meros 6 segundos. É o tempo que o abdômen demorou para rachar com o som de um galho seco quebrando. Lá dentro, uma miniatura recém-nascida de Saak’loo abria a boca a chorar, para chamar a atenção dos anciãos da tribo e ser resgatado. A Passagem estava concluída. Ele começava ali uma nova vida.

Bons.tapas

Eu.leio.também

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