Fuga da Fantasia: Preparando a festa

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Fuga da Fantasia: Formatura

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Passagem

No alto do morro, em uma reentrância que lembrava a entrada de uma caverna, Saak’loo estava deitado de barriga para cima esperando pela Passagem. Mesmo já a tendo feito uma vez anteriormente, as sensações de ansiedade e apreensão preenchiam seu corpo.

O principal sintoma de que a hora da Passagem havia chegado era o abdômen dilatado, que em nada se parecia com gordura ou doença. Era a barriga da Passagem. Uma vez que ela aparecesse, o indivíduo deveria se afastar da tribo e escolher um lugar calmo e seguro para atravessar o momento. E assim estava Saak’loo: sozinho, distante, seguro. E assim estava ele: com medo, inseguro e ligeiramente triste. Apesar do lado bom, a Passagem não deixa de ter sua face indesejada.

Ela chegou. Começou pela boca secando rapidamente, como se houvesse engolido sal puro. Os lábios incharam e a língua se sentia áspera e dura. Essa etapa demora algumas dezenas de minutos, seguidos de uma turbidez na visão. Não era possível focar mais as paredes da reentrância ou o céu que aparecia após a borda do teto de onde ele estava. Cada piscada do olho seco arranhava como areia.

A audição desaparecia de repente, anunciado por um estampido alto e sucedido por um apito agido que ia suavizando até a surdez, no tempo de dez ou quinze piscar de olhos. Daí veio a coceira pelo corpo todo, sintoma da pele que se ressecava sem aviso. O cabelo deixava o couro cabeludo aos tufos, à medida que as mãos alcançavam o alto da cabeça para responder aos desejos do comichão. Nesse processo, as pontas dos dedos rachavam e sangravam e as unhas caíam.

Cego, surdo, incapaz de abrir a boca e com a pele rachando sozinha, careca e sofrendo a dor de cada uma dessas deficiências, o ultimo ato da Passagem era a dor no peito. A respiração ficou ofegante e difícil. A cada aspiração parecia que um quilo de peso era adicionado ao seu tórax, tornando a próxima um desafio a ser vencido, até quando a situação se torna insustentável. Saak’loo deu seu derradeiro suspiro.

Ao soltar o ar pela última vez sem conseguir preencher os pulmões novamente, o desespero só o tomou por meros 6 segundos. É o tempo que o abdômen demorou para rachar com o som de um galho seco quebrando. Lá dentro, uma miniatura recém-nascida de Saak’loo abria a boca a chorar, para chamar a atenção dos anciãos da tribo e ser resgatado. A Passagem estava concluída. Ele começava ali uma nova vida.

"beta-B"

Por que eu uso beta-B, doutor? Ah, essa é fácil. Aqui na clínica de reabilitação todo mundo já me fez essa pergunta. Você não leu a minha ficha, leu? Acredito que não. Mas tudo bem, repetir a história faz passar meu tempo neste limbo maldito em que me enfiaram.

Se você enxergasse algo que mais ninguém vê, mas para você é tão real quanto todas as outras coisas a sua volta, como você reagiria? Contaria para mais alguém? Guardaria em segredo? E se essas visões te passassem informações cruciais, questões de vida ou morte para as demais pessoas? Ainda assim guardaria para si?

Deve estar me achando paranoico agora, né? É o que todos dizem. Eu vejo cores que ninguém mais vê. Eu vejo números e formas sobre as cabeças, como névoa permanente, indicando a hora e a forma da morte de cada um. Eu ouço ideias e sinto intenções. Eu percebo nos olhares quem machucou ou vai machucar alguém. Eu ouço a voz do algoz e da vítima quando cruzo com algum deles na rua. Moradores de rua viciados compartilham seus delírios comigo só de nos aproximarmos. Mandantes de assassinatos cheiram a sangue seco e pus. Mulheres que apanham dos maridos, filhos abusados pelos pais, antigas vítimas de sequestros, assaltos, torturas... Eu atraio todos, como um ímã de profanações, e suas súplicas enchem minha boca de um gosto amargo, que persiste por horas. Guardar segredo sobre esse tipo de coisa não mantém a consciência em dia quando o que você absorveu sobre a pessoa vem à tona depois de um tempo.

Eu já tentei alertar a polícia de tudo isso, e como consequência sou suspeito de dois crimes que não cometi. Estou tranquilo quanto a isso porque tenho álibis fortes que me tiram das cenas dos crimes, mas não tenho mais nenhuma apoio oficial para ajudar aqueles que, intencionalmente ou não (não sei dizer), dividem seu sofrimento comigo.

Agora tente pegar um metrô ou um ônibus nessa condição. Experimente entrar em um restaurante, dividir um elevador cheio, ir ao centro da cidade. Vá dormir enquanto ouve o vizinho de cima pensando no plano de como matar o chefe. Sinta o cheiro ácido e enjoativo do casal de baixo, que se odeia, se trai mutuamente escondido e se suporta simplesmente porque nenhum quer pagar pensão para o outro por conta do filho de 6 anos de idade.

Só tem uma resposta, doutor: beta-B. O mundo fica acinzentado e silencioso, os cheiros somem e o tempo passa devagar. As vozes cessam, as visões param, nada mais tem gosto. A vida fica comum e pálida. Contudo, é mais suportável de ser vivida.

O mais curioso dessa conjuntura é que só vim parar aqui porque a comercialização de beta-B é proibida, sendo que faz mal apenas a mim mesmo (apesar de eu considerar um bem frente ao que tenho que enfrentar sem ele). Vocês me dão essas pílulas fraquinhas, achando que estão ajudando, só que me têm feito passar o tempo todo confuso entre o que é realidade, o que é alucinação causada por essas merdas e o que é resquício das sensações originais que não foram embora.

Por exemplo, doutor, os números e as formas sobre a sua cabeça estão aí. Quer saber o momento e o modo como você vai passar desta pra uma melhor? Não te conto; você não aguentaria viver com essa informação. Não sem beta-B (que ironia!).

O que eu queria mesmo, doutor, era não ver além do que todo mundo vê.

Quase lá

Havia o banco do parque, havia André e não havia mais nada. O rapaz estava sentado ali havia um bom tempo, costas levemente curvadas para frente, mãos de palmas unidas e guarnecidas entre as coxas, que se comprimiam como quem quer se esquentar, apesar do clima ameno de vinte e poucos graus que fazia ali.

Ele olhava para frente, mas não olhava para nada. Às vezes uma folha se mexia para cá ou para lá ao vento, ou um passarinho rapidamente descia ao chão, bicava uma ou duas vezes o passeio de cimento cru e alçava voo de novo. As poucas árvores ao redor, velhas, de troncos grossos e de casca escura, nada faziam, como é de se esperar de uma árvore. Nos espaços de terra nua, nem uma formiga. O único som que ouvia era o do vento, que raramente vinha tirar o aspecto de fotografia da paisagem e lhe dava segundos de movimento e áudio.

Sem que a visse chegar, uma mulher sentou-se no banco a um braço de distância de André. Ela era muito branca, magra e dos lábios finos. Os cabelos levemente ondulados desciam apenas até os ombros, mas não tinham um corte definido. Parecia que ela os tinha deixado crescer à toa e se conformou com o resultado até ali. Vestia uma camiseta de algodão preta e justa, uma calça de linho também preta e uma sapatilha preta de verniz de bico arredondado. Se fosse preciso adivinhar, dava pra se dizer que ela tinha acabado de sair de um lugar formal, mas tinha falhado miseravelmente em se arrumar para a ocasião.

Com os dedos, cinco gravetos ossudos na extremidade da mão, ela envolvia a alça de uma pequena maleta de couro, também preta, de dois palmos de comprimento e menos de um de altura. Os detalhes da alça e da fechadura eram dourados, o único ponto que divergia da dualidade preto-roupa-branco-pele dela. Ao se sentar, ela apoiou a valise no colo e a abriu, alheia ao fato de André observá-la sem discrição.

De dentro da maleta, a moça tirou dois tubinhos metálicos e os rosqueou cuidadosamente, montando uma flauta transversal maravilhosa. Não havia marcas, arranhões, sinais de batidas, mancha ou gordura. Em suma, daria para dizer que se tratava de um instrumento novo em folha. Finda a montagem, ela olhou diretamente nos olhos de André, como se soubesse desde o começo que era fitada, e começou a tocar.

A melodia era densa, apesar da sonoridade suave e relaxante da flauta. As notas se sobrepunham e se quebravam, e sabe-se lá de onde ela tirava fôlego para tocar tantas de uma só vez. Ela tombava o corpo para frente e para trás, no ritmo da música, de forma pendular, e em pouco tempo fechou os olhos, consumindo o próprio produto a que dava vida. Sem se dar conta, André começara a balançar o corpo da mesma forma e as mãos, antes escondidas entre as pernas, pousavam sobre as tábuas que faziam o assento do banco.

A música parecia uma súplica. A voz de alguém que pede socorro cantando suas mágoas e pedindo para ser resgatada. Um choro contido, sem a amargura do desesperado, mas com a tristeza de quem reconhece que pede ajuda sem saber se será ouvido. André fechou os olhos e notou que já murmurava a canção. Ela era cíclica, apesar de longa, como um refrão que se repete e gruda, mas que não enjoa.

Em determinado momento, André abriu os olhos e só ele cantarolava. Aparentemente, a flautista já havia encerrado sua apresentação particular havia um tempo e o rapaz fazia seu solo. Ele se envergonhou da situação, e mais ainda quando percebeu que a mão direita, que antes estava no banco, apoiava-se com delicadeza na coxa de sabiá dela.

A mão recuou por reflexo e o rosto queimou em vermelhidão também sem seu controle. Ela resolveu falar:

- Fique tranquilo, André! Não tenha medo... Meu chamo Cida e estou intencionalmente te hipnotizando.

Enquanto ele trocava a timidez pela surpresa de uma desconhecida saber seu nome, a moça abria um sorriso modesto e começava a inclinar o corpo ainda sentado na direção dele.

Nesse momento, André começou a detalhar os traços de Cida e rapidamente chegou à conclusão de que ela era linda. Ele a desejou, de coração. Compreendeu, sem que nada fosse dito, que ganharia um beijo daquela deusa a sua frente e relaxou o corpo, para se entregar. Nenhum dos dois fechou os olhos na aproximação. Ele também passou a tombar o corpo na direção dela, mas mais vagarosamente. Ambos sorriam. Ambos estavam na mesma frequencia. Ambos cantarolavam a música funesta, no mesmo compasso.

- Cida, deixe o garoto!

A harmonia foi interrompida bruscamente por uma voz masculina grave, levemente rouca.

- Téo! Você foi mais rápido desta vez... - devolveu Cida.

O casal sentado voltava à posição inicial de antes da flauta começar a ser tocada, ela com naturalidade, ele visivelmente embaraçado.

- Você é namorada dele? Olha, senhor, eu não quis... Digo, eu não tive intenção... Quero dizer, não aconteceu nada, é que... Cida, o que se passa? Senhor, me desculpe, mas eu...

- Fique tranquilo, não vou fazer nada com você. - tranquilizou Téo, cortando de vez as frases já recortadas que saiam da boca do jovem.

- Cida, vou tomar sua companhia um tempo. - ele continuou, e aparentemente a moça não se incomodou, já que respondeu com um sorriso e um aceno de cabeça. - Venha, rapaz! Vamos dar uma volta e conversar um pouco.

André fitou o homem em pé a sua frente. De meia altura, pele escurecida pelo sol, barba por fazer e vincos no rosto, daqueles que estão mais para vales que armazenam experiência do que dobras que entregam a velhice, o homem lhe sorria. Téo não parecia um nome que combinava com o que via. Na ideia de André, "Téo" não tem cabelos grisalhos.

Sem saber exatamente o porquê, assim como tudo desde que se deu conta que estava sentado naquela praça, o rapaz obedeceu e se levantou. Antes de dar o primeiro passo, pôde notar que o parque estava movimentado com esquilos, pássaros, joaninhas, lagartixas e toda a sorte de pequenos animais.

Cida fez questão de se despedir:

- Tchau, André! Será que nos veremos de novo?

Bons.tapas

Eu.leio.também

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